- 16 de Janeiro, 2026
- Posted by: Filipa Ferreira
- Category: Inteligência Artificial
A IA generativa está cada vez mais integrada nos fluxos de trabalho diários em organizações de todo o mundo. Os colaboradores utilizam ferramentas de IA, como o ChatGPT, para gerar ideias, explorar alternativas, resumir informação e acelerar projetos. À medida que estas ferramentas se tornam mais capazes, muitas organizações esperam que estas estimulem níveis mais elevados de criatividade, permitindo que os colaboradores produzam ideias mais inovadoras e impactantes.
No entanto, apesar desta promessa, a recompensa criativa tem sido surpreendentemente inconsistente. Os autores constataram que a IA generativa pode, de facto, aumentar a criatividade dos colaboradores, mas os ganhos não são universais. Mais concretamente, os colaboradores com metacognição mais elevada — a capacidade de planear, avaliar, monitorizar e aperfeiçoar o próprio pensamento — são mais propensos a experienciar ganhos criativos com a utilização da IA generativa, uma vez que conseguem utilizá-la de forma mais eficaz para adquirir os recursos cognitivos no trabalho que fomentam a criatividade.
Para líderes e organizações, esta constatação redefine o desafio da criatividade apoiada por IA: para desvendar o potencial da IA no aumento da criatividade no local de trabalho, as organizações devem ir além da simples implementação de novas ferramentas; precisam também de investir no desenvolvimento da metacognição dos colaboradores e promover uma utilização consciente e estratégica da IA, de modo que os colaboradores possam traduzir os resultados da IA em desempenho criativo mais eficaz.
A investigação
Para compreender como e para quem a IA generativa potencia a criatividade, os autores centraram-se num insight importante da investigação em criatividade: os colaboradores produzem ideias mais criativas quando dispõem dos adequados recursos cognitivos no trabalho. Estes recursos incluem dois elementos-chave: a) informação e conhecimento; e, b) a oportunidade para ajustar métodos e tarefas de trabalho, como alternar entre tarefas complexas e simples e fazer pausas mentais.
A investigação dos autores propõe que a utilização da IA generativa pode aumentar os recursos cognitivos no trabalho dos colaboradores de duas formas principais. Primeiro, ao expandir o conhecimento: embora o conhecimento próprio dos colaboradores seja limitado, a IA generativa pode disponibilizar grandes quantidades de informação em segundos. Isto expande a base de conhecimento dos colaboradores e permite-lhes integrar insights em diferentes domínios. Segundo, ao libertar capacidade mental: quando a IA generativa executa tarefas como resumir textos, gerir dados e redigir conteúdos, reduz a sobrecarga cognitiva dos colaboradores, permitindo-lhes redirecionar recursos para a resolução de problemas complexos. Os colaboradores podem também utilizar a IA para apoiar tarefas complexas e cognitivamente exigentes, enquanto mudam periodicamente para tarefas mais simples, o que lhes permite restaurar a capacidade mental e quebrar padrões de pensamento fixos.
No entanto, o acesso às ferramentas de IA, por si só, não garante que os colaboradores consigam adquirir os recursos cognitivos necessários à criatividade. Os colaboradores diferem substancialmente na sua capacidade de aproveitar a IA para obter estes recursos cognitivos no trabalho. Os autores constataram que um fator diferenciador é a metacognição dos colaboradores: a sua capacidade de monitorizar ativamente o próprio pensamento durante a execução de tarefas. Por exemplo, colaboradores com metacognição elevada geralmente refletem sobre as etapas necessárias para realizar uma tarefa, monitorizam a eficácia da sua abordagem e fazem ajustes quando identificam falta de progresso. Esta reflexão contínua torna-os mais conscientes das suas lacunas de conhecimento, das exigências da tarefa e dos seus próprios estados mentais. Consequentemente, conseguem compreender melhor que informação necessitam e quando devem mudar de abordagem ou fazer pausas para interromper padrões de pensamento fixos e restaurar a capacidade cognitiva. Em contraste, colaboradores com metacognição baixa tendem a aceitar a primeira resposta da IA, confiar nos resultados padrão e não verificar se as sugestões da IA são precisas ou relevantes. Consequentemente, colaboradores com metacognição mais elevada estão muito melhor posicionados para utilizar ferramentas de IA na aquisição de recursos cognitivos no trabalho que fomentam a criatividade, enquanto aqueles com competências metacognitivas mais baixas obtêm poucos ganhos criativos da IA.
Para analisar estas ideias em contexto de trabalho real, os autores realizaram um estudo de terreno com 250 colaboradores de uma empresa de consultoria tecnológica na China. Os resultados foram claros. Os colaboradores com metacognição mais elevada tornaram-se mais criativos ao utilizar a IA — produziram ideias consideradas como mais inovadoras e mais úteis. Mas, para colaboradores com metacognição mais baixa, a IA fez pouca diferença. Por outras palavras, apenas os colaboradores que sabiam como interagir de forma consciente com a ferramenta conseguiram utilizar a IA para expandir os recursos cognitivos que fomentam a criatividade.
Em resumo, a investigação dos autores revela um insight determinante para os líderes: a IA generativa não torna automaticamente os colaboradores mais criativos. O que importa é se os colaboradores têm a metacognição necessária para utilizar a IA de forma reflexiva. A questão central para os líderes, portanto, não é se os colaboradores utilizam a IA, mas se têm as competências metacognitivas para interagir com esta de forma ponderada e estratégica — transformando as sugestões da IA em insights criativos.
Como é que os líderes podem ajudar a aumentar a criatividade dos colaboradores
Os seguintes passos podem ajudar organizações e líderes a maximizar o impacto criativo da IA generativa.
1. Ajudar os colaboradores a utilizar a IA para expandir os recursos cognitivos no trabalho que fomentam a criatividade
A IA generativa pode potenciar a criatividade dos colaboradores ao expandir o seu acesso a informação e conhecimento e ao libertar a sua capacidade mental para a resolução criativa de problemas. Os líderes devem incentivar os colaboradores a utilizar a IA para reunir informação diversa, explorar múltiplas perspetivas e automatizar tarefas rotineiras para restaurar a capacidade cognitiva. Ao utilizar a IA para alargar a sua base de conhecimento, quebrar padrões de pensamento fixos e reduzir a sobrecarga cognitiva, os colaboradores criam condições que tornam mais prováveis os insights criativos. No entanto, os resultados sugerem que estes benefícios dependem, em grande parte, da forma como os colaboradores interagem com a IA — destacando a importância da metacognição, o que é realçado no ponto seguinte.
2. Consciencializar que a metacognição é o motor da criatividade apoiada por IA
Os líderes podem assumir que a integração da IA generativa nos fluxos de trabalho tornará automaticamente todos os colaboradores mais criativos. No entanto, a investigação mostra que os ganhos criativos tendem a ocorrer entre os colaboradores capazes de monitorizar ativamente o seu próprio pensamento e, posteriormente, avaliar, questionar e aperfeiçoar os resultados da IA. Na prática, isto significa que os colaboradores devem tratar as sugestões da IA como pontos de partida e não respostas finais — iterando sobre elas, identificando lacunas e desafiando pressupostos. Por exemplo, dois colaboradores a utilizar a mesma ferramenta de IA podem acabar por obter resultados muito diferentes: um pode aceitar a primeira sugestão da IA sem verificar, enquanto o outro pode analisar a sua precisão, procurar alternativas e integrar novos insights. A última abordagem é muito mais propícia à criatividade. Os líderes devem ajudar os colaboradores a compreender esta distinção para facilitar um envolvimento mais produtivo com a IA.
3. Desenvolver competências metacognitivas através de formação direcionada e escalável
Os líderes devem ter em consideração as capacidades metacognitivas dos colaboradores ao implementar a IA e investir no desenvolvimento destas capacidades através de formação. As empresas podem disponibilizar sessões curtas que introduzam a metacognição e mostrem aos colaboradores exemplos reais de erros da IA, pedindo-lhes que antecipem, detetem e corrijam essas falhas. Programas mais longos podem centrar-se em ajudar os colaboradores a desenvolver hábitos mais profundos de planeamento, monitorização e avaliação do seu pensamento. Mesmo listas de verificação simples — clarificar o problema, determinar como avaliar a sugestão da IA e explorar alternativas — podem fazer com que os colaboradores passem de uma dependência passiva da IA para um envolvimento mais ativo e estratégico.
4. Estruturar fluxos de trabalho que promovam um envolvimento ativo e iterativo com a IA
Os líderes devem estruturar fluxos de trabalho que posicionem a IA como uma parceira de pensamento e não como um atalho. Em vez de incentivar a utilização da IA para respostas rápidas, os líderes devem estabelecer processos que envolvam gerar múltiplas perspetivas, comparar e criticar os resultados da IA e aperfeiçoar ideias através de várias iterações. Com o passar do tempo, as organizações podem até considerar as capacidades metacognitivas dos colaboradores na contratação para funções intensivas em IA ou criatividade. Mas, para a maioria das empresas, desenvolver estas competências através de formação e prática diária será mais escalável do que depender apenas da seleção.
Advertências e limitações
Ao aplicar estes insights, os líderes devem ter em consideração várias limitações. Primeiro, os resultados são baseados numa organização na China. Embora os mecanismos subjacentes possam ser generalizados, as atitudes em relação à IA podem variar entre países e setores. Segundo, outros traços pessoais — por exemplo, traços motivacionais como forte desejo de aprender ou de perseguir objetivos ambiciosos — podem também influenciar a eficácia com que os colaboradores interagem com a IA para potenciar a criatividade. Terceiro, o estudo analisou efeitos de curto prazo ao longo de uma semana. As consequências de longo prazo da utilização continuada da IA permanecem questões em aberto. As organizações devem avaliar regularmente como é que a utilização da IA influencia a aprendizagem e o desenvolvimento de competências dos colaboradores ao longo do tempo.
Em suma, a investigação mostra que a IA generativa pode potenciar significativamente a criatividade — mas apenas nos colaboradores com metacognição elevada. Ao combinar a implementação da IA com o apoio deliberado ao pensamento metacognitivo, as organizações podem desvendar insights mais profundos, acelerar a inovação e garantir que os colaboradores conduzem a ferramenta, em vez de se deixarem ser conduzidos.
Adaptado de: “Why AI Boosts Creativity for Some Employees but Not Others“, por Jackson G. Lu, professor associado de Gestão da General Motors no MIT Sloan School of Management, Shuhua Sun, professor associado de Gestão e professor titular da Cátedra Callais de Empreendedorismo na A. B. Freeman School of Business da Tulane University, Zhuyi Angelina Li, professora assistente no Departamento de Organização e Recursos Humanos na School of Business da Renmin University of China, Maw-Der Foo, titular da Cátedra Presidente e professor de Empreendedorismo na Nanyang Business School da Nanyang Technological University, e Jing Zhou, vice-diretora e professora titular da cátedra Mary Gibbs Jones de Gestão na Virani Undergraduate School e Jones Graduate School of Business da Rice University, publicado em Harvard Business Review em 06 de janeiro de 2026.